Carta final da V Jornada de Agroecologia da Bahia

Encerramento da V Jornada de Agroecologia da Bahia. Foto: Lua

Está decretado o fim da invasão!

Foi num espaço à beira das praias de Porto Seguro – onde, exatos 517 anos atrás, aportaram na Bahia os invasores portugueses –, que nós, ativistas das Teias dos Povos, realizamos nossa V Jornada de Agroecologia, com o intuito de, em primeiro lugar, denunciar que essa chegada dos europeus, foi, acima de tudo, o início oficial da ocupação de nosso território pela colonização europeia e a hegemonia do Capital, a qual persiste até os dias atuais.

Somos mulheres e homens, crianças e anciões de inúmeros movimentos sociais e povos em luta: assentadas e assentados, acampadas e acampados, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, extrativistas, pescadoras e pescadores, quebradeiras de coco, povos de terreiro, povos de fundo e fecho de pasto, educadores, estudantes, pesquisadores, trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade. Na Teia dos Povos, construímos uma aliança em busca do Bem Viver e da defesa dos territórios.

Aqui viemos para afirmar em alto e bom som: esta não é a Costa do Descobrimento, é a Costa da Invasão! Estas terras tinham e têm dono. Este foi o mote de nosso encontro este ano: Terra e Território – Natureza, Educação e Bem Viver. Ele nos lembra que precisamos construir um mundo em que a luta dos povos pulse nos caminhos da ancestralidade.

Nossa alegria pela reunião se redobra com a presença de uma comitiva da Teia dos Povos do Maranhão, vinda do outro extremo do Nordeste, das fronteiras da Amazônia. Recebemos com alegria esses irmãos e irmãs que lutam pelos mesmos ideais e preparamo-nos para também visitá-los em retribuição, consolidando a aliança dos povos, tal como havíamos anunciado como nosso compromisso primordial.

Com esse ato de ocupar as praias de Porto Seguro, entre os dias 19 e 23/4/17, queremos lembrar ainda, que, hoje, vivemos tempos sombrios, em que nosso país e toda a América Latina voltam a correr grave perigo diante da nova investida imperial estadunidense e de outros representantes da linha de frente dos interesses do Capital.

Neste momento temeroso em que o Brasil tem sua Constituição rasgada por esse mau governo que ataca os direitos historicamente conquistados pelas lutas da classe trabalhadora, recebemos tristes notícias que sinalizam o avanço do império do autoritarismo e do racismo: primeiro, a chacina que vitimou esta semana ao menos dez camponeses na gleba Taquariçu do Norte, em Colniza (MT); depois, a condenação pela Justiça do jovem negro Rafael Braga, preso durante as manifestações de junho de 2013 por portar uma garrafa de pinho sol.

A investida do capital, vale lembrar ainda, não se dá somente por meio do poderio militar, mas também a partir da impressionante capacidade dos grandes conglomerados empresariais internacionais, em particular aqueles ligados à comunicação digital, de manter uma grande parte da população em estado de alienação, completamente absorvida por uma pauta diária que a imobiliza, desmobiliza e fragmenta.

Diante desse quadro, convocamos a todas as pessoas dispostas a não ceder a esse entorpecimento e comprometidas com a luta pela autonomia das comunidades e a dignidade humana a retomar a luta contra o Capital e o Império. Desde o Sul da Bahia conclamamos os povos a se juntarem à bandeira da agroecologia e, por meio dela, construir alternativas locais à monocultura que o capital nos impõe. O mundo capitalista é uma fazenda cercada!

A Teia representa a esperança de unidade dos povos, em sua diversidade e pluralidade. Não haverá democracia real no Brasil sem a justiça na distribuição de terras e na demarcação dos territórios, sem o respeito à autonomia das comunidades e sem a construção de uma nova matriz econômica, alicerçada na soberania alimentar e na agroecologia. Se a colonização se consolida em nossas cabeças, a descolonização real começa pelos pés, pisando nos territórios, demarcando-os com nossos passos e cultivando-os com a prática de nosso bem viver.

Revigorados e animados pelo encontro e a partilha, deixamos as praias da Costa da Invasão novamente rumo a nossos territórios reafirmando o compromisso com os desafios que a Teia se coloca para 2017: consolidar e robustecer a aliança dos povos; conquistar e garantir nossos territórios; recuperar os biomas devastados pelo latifúndio agroexportador; produzir autonomia e soberania alimentar; construir uma economia para além do capital; descolonizar definitivamente o ensino em nossas comunidades, fortalecendo as Quatro Grandes Escolas que neles estão sendo cultivadas – A Escola das Águas e dos Mares, a Escola dos Quilombolas, Tambores e Terreiros, a Escola do Arco e da Flecha e a Escola da Floresta, do Cacau e do Chocolate.

Muitas pisadas na direção do cumprimento desses compromissos já foram dadas este ano. Um exemplo são as diversas visitas solidárias entre as comunidades participantes da Teia, como a agora realizada por uma delegação da Jornada ao território Cahy-Pequi/Comexatibá, do Povo Pataxó, chamado pelos invasores de Parque do Descobrimento. Os mutirões se multiplicam. A rede de troca de sementes crioulas prospera. A juventude se fortalece. As mulheres avançam na tecitura de sua rede. Nossas iniciativas de comunicação se ampliam em vários fronts – a exemplo do acordo que assinamos com a TV Educativa da Bahia durante a V Jornada.

Ao som dos maracás, tambores, atabaques, cantando e bailando com nossas Guerreiras e Guerreiros, Caboclas e Caboclos, Mikisi, Orixás, Seres de Luzes e Encantados, convocamos mulheres, homens, jovens, crianças, anciões – toda a humanidade em luta pela construção do bem viver – a juntar-se a nossa caminhada. A história pertence à mulher e ao homem que não têm medo de lutar.

É preciso resistir para existir. Compreendemos que nossa Mãe Terra não nos pertence, nós é que pertencemos à Terra. E por isso é preciso dizer ao povo que avance para a tarefa da descolonização. Convocamos a todos a se juntar nesse grande mutirão, na construção permanente do Bem Viver.

Aquilo que nos une é maior do que o que nos separa.

Dizendo ao Povo que avance. Avançaremos!!!!

Pátria libre!

Porto Seguro, Terra dos Pataxó, 23 de abril de 2017.

 

5 comentários sobre "Carta final da V Jornada de Agroecologia da Bahia"

  1. Fui com espírito e sentimento de que seria boa a jornada, passei 5 dias de grandeza e satisfação, sai no termino do evento com um sentimento de que necessitamos um pouco mais de independência camponesa,e a necessidade de cada dia produzir comida de verdade e não commodites.

  2. Olá companheiros/as,

    Nos sentimos irmandados nesta corrente.

    A descolonização do saber e da cultura é um tema bastante interessante e que pode nos ajudar nas nossas ações de resistência. Para tanto, o Professor Carlos Walter Porto Gonçalves (importante geógrafo marxista brasileiro) está desbruçado sobre esta temática e contribuindo com esta discussão na América Latina. Abaixo, segue matéria em recente atividade.

    Abs e avante

    Maicon

    Exposição de Carlos Walter a convite do Instituto para el Desarrollo Rural de Sudamérica (IPDRS), na Bolívia.

    https://www.facebook.com/IPDRS/posts/10154578907267358?comment_id=10154579062052358&notif_t=comment_mention&notif_id=1493424371585199

    “Charagua es un referente importante al que se debe prestar mucha atención”, Carlos Walter Porto-Gonçalves
    El intelectual geógrafo brasileño Carlos Walter Porto Gonçalves llegó a Bolivia para llevar adelante importantes ponencias sobre la des/colonialidad del poder en América Latina. También fue parte de un conversatorio con el equipo del Instituto para el Desarrollo Rural de Sudamérica (IPDRS), abordando diferentes temáticas relacionadas a tierra, ecología, los modelos de desarrollo, agro negocios, monocultivos, el rol de las comunidades indígenas, y el escenario político regional.
    Respecto a los agro negocios y al monocultivo en Brasil, Porto Gonçalves estableció que hay una clara y acelerada expansión de los mismos, ocupando millones de hectáreas.
    De igual manera, explicó que esta visión desarrollista en la región mantiene una permanente agenda de explotación minera y una visión desarrollista de progreso al estilo eurocéntrico occidental, avanza sobre los territorios indígenas y campesinos, pese a que se hablen de territorios ricos en biodiversidad.
    “Hay un intenso debate, porque dentro de nuestros territorios en la región, hay conflictos, y los movimientos luchan y hacen resistencia”.
    Por ello, enfatizó que se debe buscar un nuevo horizonte teórico-político por fuera de las grandes estructuras partidarias, y este lo marcan los movimientos indígenas y campesinos y sus permanentes luchas.
    En el caso de Bolivia, destacó la marcha indígena de 1990 denominada “por el territorio y la dignidad”, donde participaron dirigentes históricos del movimiento en el país.
    En esta línea, manifestó también que la Autonomía Indígena Originaria de Charagua, es otro importante referente para los gobiernos, las luchas y las autonomías indígenas que transitan por la misma ruta.
    “Es un referente importante al que se debe prestar mucha atención”, dijo durante el conversatorio.
    Es así que en América Latina es necesario cambiar el pensamiento y analizar a las regiones, los lugares, desde abajo, desde el trabajo compartido con los grupos locales, para logra una verdadera geografía libertaria y comprometida con la realidad, por ellos es necesario romper con el eurocentrismo y el pensamiento colonial.
    Porto-Gonçalves es Géografo, militante teórico-político. Este referente intelectual latinoamericano que ha desarrollado una vasta producción teórica siempre anclada en el calor de las luchas territoriales, ganó el premio Casa de las Américas por su libro “La globalización de la naturaleza y la naturaleza de la globalización”.
    Sus aportes también están presentes en el trabajo del Movimiento Regional por la Tierra y Territorio , con un análisis profundo relacionado a las temáticas de territorialidad, conflictos, movimientos sociales y justicia ambiental, tanto en Brasil como en la región.

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